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ANDAR COM AS PRÓPRIAS PERNAS

Puntel

Todos nós conhecemos esta expressão e o que ela significa, pois não? Pois foi este o tema pedido na prova de redação da Fuvest/2017. Apenas e tão-somente as palavras eram outras. A partir de “O que é Esclarecimento?”, texto do filósofo alemão Immanuel Kant, os candidatos teriam que argumentar a respeito da seguinte frase: “O homem saiu de sua menoridade?”

Embora o texto kantiano seja um texto filosófico, e os textos filosóficos equivocadamente sejam vistos como complexos, este, em particular, é de uma clareza cristalina. Mesmo porque, nos três parágrafos, Kant define e explica o que entende por “esclarecimento”. Ou seja, é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. E por que ele é o próprio culpado de não amadurecer, de não assumir a sua maioridade? Kant mesmo responde: não pela falta de entendimento, mas de “determinação”, de coragem” para “ousar”, para fazer seu próprio caminho. Em outras palavras, para ser “autônomo”, ou seja “andar com as próprias pernas”.

Deus do Céu! Quantas vezes os professores de redação falam isso em sala aula! Falam, por exemplo, da necessidade de os alunos terem um texto com a marca da “autonomia textual”. Pronto! Aí está a proposta kantiana! Aí está o tema da Fuvest!

Os candidatos que entraram em contato com textos metafóricos de transformação, de evolução, de quebrar amarras, certamente souberam usar o recurso da citação. Se conheciam o texto kafkiano “Diante da Lei”, por exemplo, poderiam usar a metáfora do indeciso e medroso camponês, que não “ousa” entrar na Lei porque o guarda da porta proíbe-lhe a entrada. Ele, então, passa anos e anos à espera de autorização, sem “ousar” transpor a porta. Até que, já para morrer, pergunta ao guarda, ao seu “tutor”, por que ele não o deixa entrar. O guarda lhe responde: porque esta porta era só para ti. Como não entrastes, não vais entrar mais. E a fechou.

Os candidatos que assistiram, por exemplo, ao filme “Abril Despedaçado”, com a interpretação de excelentes atores, poderiam ter citado o dramático, mas lírico final. Tonho, magistralmente interpretado por Rodrigo Santoro, em vez de obedecer ao pai e aos falecidos parentes, pendurados em retratos funerários pelas paredes do casebre, e continuar a matar os vizinhos inimigos, “ousa” tomar sua decisão. Na encruzilhada, em vez de ir em direção à casa da família inimiga, “ousa” seguir pelo caminho do mar, fugindo das amarras que o prendiam à “briga familiar” dos Breves e dos Ferreiras. Assume, assim, o seu amadurecimento, o seu “esclarecimento kantiano”.

Ainda poderiam usar a metáfora da transformação da lagarta, a menoridade, que se transforma em crisálida, para atingir a maioridade no voo da borboleta.

Enfim, prova de redação, como sempre se fala em sala de aula, é saber ler, interpretar e fazer relações da proposta com os textos que os candidatos entram em contato na sua formação de leitores.  



 

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