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A SEXUALIDADE E AS RELAÇÕES SOCIAIS EM "O CORTIÇO".

Puntel

O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, é um romance naturalista, publicado em 1890, que denuncia a exploração e as péssimas condições de vida dos moradores das estalagens ou dos cortiços cariocas do final do século XIX.

É importante, antes de adentrarmos na análise da obra, abordarmos o contexto histórico em que viveu o autor maranhense. A sociedade burguesa, industrial e materialista fortalecia-se e os métodos científicos e as ciências naturais começavam a evoluir. Para exemplificarmos, basta citarmos o Positivismo, de Augusto Comte; o Darwinismo, de Charles Darwin; o Socialismo Científico, de Karl Marx e o Determinismo, de Hipólito Taine. 

O enredo do romance de Azevedo é influenciado pelo rigor científico desse momento histórico. Isso fica explícito no desenrolar da narrativa, que se passa justamente em um cortiço, ou seja, em uma edificação de habitação coletiva no Rio de Janeiro. E é nesse local que são retratadas as paixões humanas, as injustiças sociais, a sovinice, como também a ira, a inveja e a sexualidade explícita dos moradores, entre outros sentimentos humanos.

O enfoque da corrente estética do Naturalismo explicita, com frequência, a interação dos personagens, tanto da estalagem como também dos moradores do sobrado contíguo ao cortiço. Por se tratar de uma narrativa com múltiplas personagens e suas relações patológicas, serão focados, nesta resenha, três aspectos. Por exemplo, os relacionamentos sexuais de João Romão e a escrava Bertoleza, assim como Miranda e sua esposa Estela. Abordaremos também as relações sociais entre Romão e Miranda. Não deixaremos de analisar também a degradação moral de Jerônimo, um personagem significativo da narrativa.

Em primeiro lugar, João Romão relaciona-se sexualmente com a escrava Bertoleza, a quem enganou, “fabricando” a carta de alforria. No entanto, a narrativa nos explicita que esse relacionamento é apenas por conveniência, pois Romão sempre age de forma pragmática, ou seja, explorava a escrava sexual e também profissionalmente, uma vez que ela trabalha sem se queixar. Pelo contrário, até sente orgulho de estar amasiada com um português, homem de raça superior.  

No outro viés da abordagem sexual, Miranda, por sua vez, relaciona-se com Estela, sua esposa, por conveniência econômica, por causa do dote recebido no casamento. Ele a odeia por saber de suas infidelidades, mas é conveniente relacionar-se sexualmente, já que nem sempre suas escravas estão à disposição.

Em segundo lugar, as relações sociais dos dois oponentes é de inveja. Miranda tem inveja de Romão, por ele ser livre, não tendo que se adequar às etiquetas sociais. Romão, por sua vez, inveja Miranda, pelo vizinho ter adquirido o sobrado, e por se tornar barão.

Uma última análise a que nos debruçaremos nesta resenha é sobre a degradação do personagem Jerônimo. Se, inicialmente ele é visto como homem honesto e cumpridor dos deveres matrimoniais, ao conhecer Rita baiana, vai, gradativamente, confirmando a tese do sociólogo Taine, que é alicerçada em três pilares: o homem é fruto do meio, da raça e do momento histórico. Por Jerônimo ter vindo ao Brasil, região setentrional, onde o calor, a alimentação, a música, ou seja, o meio em que ele passa a viver, paulatinamente ele se degrada moral e fisicamente, tendo abandonado a família, passando a beber e a se “abrasileirar”.

Se Jerônimo se degrada, a ganância de Romão se concretiza. Ele se livra da escrava Bertoleza, que se suicida, casa-se com Zulmirinha, filha de Miranda e Estela e, ironicamente, a narrativa termina com a colaboração que o agora capitalista faz à campanha abolicionista.

O Cortiço, assim, denuncia as mazelas humanas. Não perdoa nem mesmo a personagem Pombinha, que de moça recatada e pura, torna-se prostituta nas mãos da cocote Léonie. Sem dúvida nenhuma, é uma obra clássica da literatura brasileira.



 

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